segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Ninguém

Andava pela rua sozinha, já passavam das dez da noite. Nada de especial acontecera, só estava voltando do trabalho. Um trabalho maçante e sem sentido, com um salario mediocre. De vez em quando se perguntava porque nao pedia demissao. E lembrava que ser mediocre era o que sabia ser.
A rua estava escura, um dos postes de luz havia queimado. Grande coisa. Já teve medo do escuro uma vez, nao se lembrava bem quando nem porque. Afinal, já teve medo de tanta coisa... De cachorros muito grandes, de mendigos, da fatura do cartão de credito. Todos esses medos tinham passado. Já que nao via mais sentido em sua vida, nao havia o que temer, certo? Quando o sentido se foi? Quando foi que tudo virou nada além de uma rotina sem significado. Não se lembrava. Talvez não quisesse se lembrar.
Notou que nao estava mais sozinha na rua. Um homem vinha na direçao oposta. Um homem negro. Nao conseguia distinguir seu rosto na baixa luz da noite. Sentiu que ele a olhou de canto de olho enquanto vinha. Maos no bolso, capuz de um largo casaco por cima da cabeça. Sentiu algo estranho tremer dentro de si. Não, não era medo. Era excitação, ansiedade. "Pode ser que ele queira me assaltar", pensou. "Quem sabe está armado e aponte a arma pra minha cabeça. Talvez ele atire." Mas não soava bom o suficiente, entao se corrigiu. "Talvez uma faca. Talvez ele possa me esfaquear em algum lugar com muito estrago. E estarei nas paginas policiais amanha!" Com esse pensamento, foi em frente. Nao atravessou como faria ha alguns anos. Encarou-o de frente. Ele também a olhava, como quem olha atentamente pra alguem, analisando cada centimetro até descobrir de quem se trata. "Boa noite", disse bem baixo. Ela parou. "É agora. É isso".  Seu corpo tremeu de excitação. Era aquilo que queria o tempo todo. Ferir-se. Talvez a dor a enobrecesse de alguma maneira, a deixasse mais humana e menos entorpecida. Ele nao encontrou nada em seus olhos e seguiu seu caminho.
O torpor voltou novamente. Sentia-se o mesmo zumbi de alguns segundos atras. Seguindo para frente, como disseram que deveria ser. Seu momento nao existiu, nao havia o que viver. Nao havia clareza nenhuma para lhe ser mostrada. Havia apenas os pés doloridos e o suor do uniforme quente que ainda vestia.
Resolveu caminhar pelo meio da rua. Tudo estava vazio e ficar na calçada era estranhamente desconfortavel. Nao enxergava limites com clareza. Faltavam dois quarteiroes para chegar em casa. Nao que ela se desse conta disso, atentou-se apenas para uma luz forte cegando seus olhos e o barulho dos pneus cantando ao virar a esquina. Um carro. Voltou a tremer. Voltou a viver. Aquele era o limite, a linha de chegada. "Trabalhadora é atropelada ao voltar para casa" imaginou a manchete. Sentiu o vento frio eriçar o pelo de seus braços. Seria lembrada, seria alguem para o mundo, mesmo que por um dia. Seus colegas inventariam historias a seu respeito apenas para ter o que encenar em sua ausencia. Seria reconhecida. Nao por nenhum feito extraordinario, apenas por ter existido. Isso bastava. Parou, entregou-se. O carro desviou, com os motoristas xingando em baixao calão. O pneu cantou. Ela voltou a caminhar. Nem mesmo decepção sentiu. Nao sentia mais nada.
Caminhou lentamente em direçao ao portao de seu predio. Há alguns meses começou a ter o habito de dar a volta na portaria principal e entrar pela de serviço. O problema era o grande tapete com o nome do condominio estampado. Todos os moradores reclamavam. A faxineira o retirava para limpar e quando colocava de volta no lugar, ele sempre ficava alto demais. E ela sempre tropeçava bem na frente do porteiro falante que fazia alguma piadinha que ela nunca escutava e pela qual se sentia obrigada a sorrir educadamente de volta.
Percorreu a garagem, até chegar ao portao de serviço. Avistou o elevador, esperava nao encontrar com ninguem para dividi-lo enquanto subia. Foi quando sentiu algo puxa-la para baixo. Tropeçou. Sentiu um golpe duro na cabeça. "Meu Deus, a senhorita está bem?" Ouviu ao longe a voz preocupada do porteiro piadista. "O que foi isso?" sairam suas palavras em sussurro. A cabeça doia muito e falar parecia esquentar seus nervos. "A senhorita tropeçou no tapete. A moça da limpeza trocou ele de lugar por causa das reclamações." Ela riu e sentiu todos os nervos implodirem. "É agora. É isso. Morta por um tropeção. Talvez dê uma nota de rodapé. Tudo bem."

Nenhum comentário:

Postar um comentário